Lobo

Biólogo, webdesigner, gamer, (não muito) alternativo...

Apr 282013
 

Mesmo que acostumado com andar em meio a florestas e outros ambientes hostis, Tariel não se sentia à vontade no meio do mato. O mesmo poderia ser dito do justiceiro Agent Error, que o acompanhava, mas este, pelo menos, não parecia se incomodar tanto. Afinal, a roupa de couro do especialista em armas de fogo não sofria tanto desgaste quanto as roupas finas do arquimago. E todo arcanista tinha, no seu âmago, algum nível de orgulho a manter.

Mas os problemas envolvendo galhos ou pequenos insetos em suas roupas deixaram de ser importantes no momento que ambos ouviram um estalar de galho próximo a eles, mas não feito por eles. Em um movimento rápido e sutil, as mãos antes vazias do justiceiro agora engatilhavam duas pistolas de seis tiros, apontando para a direção de onde vinha o som. Aparentemente, os óculos escuros do rapaz não eram um empecilho para que ele enxergasse bem, mesmo em lugares com mais sombras.

Aproximando-se devagar da origem do som, o justiceiro fez sinal para o arquimago esperar onde estava, e abaixou-se perto de uma moita. Afastou alguns galhos com uma das pistolas, enquanto puxava o cão da outra, deixando-na pronta para atirar, se necessário fosse. Dentro do mato, encontrou um Petite caído, com uma das asas queimadas de forma estranha.

O pequeno lagarto, do tamanho de uma criança, parecia estar sofrendo com a queimadura da asa. Normalmente estes lagartos atacavam aventureiros desavisados, mas estava claro que aquele ali estava à beira da morte. O justiceiro trouxe a arma engatilhada para a cabeça do animal e puxou o gatilho.

“Era um petite, Tariel.” falou o justiceiro, levantando-se e guardando as armas. “Mas olhe o estado da asa dele. Nunca vi um animal queimar assim.”

“Não viu pois não esteve recentemente em Morroc, meu caro.” falou o arquimago, se referindo a cidade destruída do deserto. “Este tipo de queimadura não é feita por fogo, mas por energia sombria. Me parece que há mais criaturas aqui do que as que aqui vivem.”

Ao ouvir a palavra “sombria”, o justiceiro pegou outras duas pistolas, desta vez de coldres que ficavam na parte de trás da cintura. as pistolas eram também de seis tiros como as outras, mas estas eram adornadas com filigranas delicadas e eram muito mais bem cuidadas, aparentemente. Agent Error abriu os tambores e verificou as munições, e tornou a fechá-las. Ao ver a cara do arquimago tentando entender o que estava fazendo apenas disse uma palavra: “prata”.

O arquimago deu um sorriso para o justiceiro, ficando finalmente mais à vontade com aquele guerreiro: afinal, ele estava preparado para lidar com criaturas sombrias, já que estava com munição de prata, que invariavelmente era letal para criaturas sombrias. Olhou com curiosidade novamente ao ver que o justiceiro abaixava e passava a mão no chão e nas folhagens, aparentemente analisando a região. Ele manteve uma das armas na mão, e aparentemente procurava pistas como se fosse um caçador.

“Houve uma briga aqui, Tariel.” falou o justiceiro, ainda olhando para o chão. “Uma criança gorda, aparentemente, lutou contra um adulto, aparentemente. Eles foram naquela direção.”

“Pode não ser uma criança gorda, mas um adulto pequeno e pesado?” perguntou Tariel, com uma ideia formada na mente.

O justiceiro levantou-se, após a pergunta, e concordou com a cabeça, entendendo o que o arquimago queria dizer. Fez sinal para que o arcanista o seguisse, enquanto seguia para oeste, aparentemente seguindo as marcas no chão e nos arredores. Ele ia narrando o que estava interpretando dos sinais que seguia. Disse que a luta seguira naquela direção, que talvez a vítima fosse a criança, ou o anão que Tariel achava ser. Ele havia sido seguido por criaturas que não conviviam bem com a vida de uma floresta, já que a melhor indicação que tinha para seguir o caminho que faziam era a grama e os galhos marginais, que estavam queimados como as asas do petite.

Seguindo por algumas horas as pistas, pararam em frente a entrada de uma caverna. Na verdade, não era uma caverna, mas uma antiga mina abandonada que havia na região. Muitas caixas atrapalhavam a entrada da mina, mas com um pouco de esforço ambos conseguiram entrar. Agent Error tirou os óculos e guardou no longo casaco que usava, e olhou para os lados, procurando uma tocha. Desistiu, ao ver que o arquimago havia conjurado uma esfera de fogo que o rodeava, iluminando o local. Assim, pegou sua segunda pistola, e ambos começaram a andar pela mina.

A mina estava abandonada há anos. Era uma mina de carvão, se a memória do arquimago não falhava, mas que fora abandonada por conta de uma infestação estranha que havia transformado os antigos mineiros dali em mortos-vivos. No meio dos carrinhos tombados, trilhos quebrados e uma bomba de água quebrada, ratos e morcegos fugiam da luz que era projetada pelo conjurador. Ainda que alguns morcegos atacassem a dupla, eles não ofereciam perigo para os dois.

Seguindo o caminho dos trilhos, que certamente levaria até o fundo da mina, a dupla confirmou que a luta que viram do lado de fora havia seguido ali para dentro. A poeira que acumulava naturalmente neste locais estava agitada na direção que seguia, confirmando que estavam no caminho certo.

Após descerem por algum tempo, a dupla encontrou um indício que estavam lidando com um anão ferreiro, e não uma criança: haviam encontrado um martelo caído no chão, muito parecido com o que Tariel havia visto Toki usar. Era, sem dúvida, um martelo de ferreiro. Tariel pegou o utensílio e prendeu em seu cinto, para entregar ao seu dono, ou ao ferreiro, se não encontrasse o primeiro.

Mas, assim que pegou o martelo, luzes começaram a aparecer mais à frente, na área não plenamente iluminada pela esfera de fogo que Tariel mantinha acesa. Algumas dezenas de pontos de luz começaram a se aproximar, fazendo som de metal raspando em metal.

O arquimago reconjurou a chama, para aumentar sua eficácia, e a dupla pode ver com precisão que eram pessoas. Mais precisamente, ex-mineradores, carregando lampiões acesos em uma mão, e picaretas enferrujadas na outra. Antes que Tariel pudesse invocar qualquer magia, os altos estampidos das pistolas de Agent Error fizeram alguns deles caírem.

“Estamos cercados, Tariel.” falou o Justiceiro. “Algum truque na manga?”

No mesmo instante, a esfera que rodeava o arquimago ampliou em tamanho e explodiu em uma onda de fogo ao redor dos dois, queimando os mortos-vivos instantaneamente, sobrando apenas montinhos de cinza onde antes eles estavam.

“Muitos.” respondeu o arquimago, conjurando uma nova chama para iluminar o caminho. “Todos letais.”

“Ótimo, pois vamos precisar, pelo visto.” respondeu o justiceiro, já recarregando as pistolas com munição revestida por prata novamente. “Que tal uma corrida para dentro da mina?”

Sem responder, o arquimago começou a correr no sentido que já estavam indo, seguido de perto pelo justiceiro. Seguiam a pista marcada na poeira, que seguia o caminho que os trilhos dos vagões de carvão delimitavam, e que se tornara um corredor sinuoso. De tempos em tempos, o justiceiro olhava para trás e dava um tiro certeiro em algum morto-vivo que aparecesse, recarregando a munição gasta em seguida.

Chegaram em uma espécie de abismo dentro da caverna, onde três trilhos suspensos pareciam levar para o outro lado. Um deles estava quebrado, enquanto que os outros dois iam paralelos, aparentemente suspensos apenas pelas extremidades.

“Bem, me parece que temos que ir para o outro lado, não? No mínimo porque acho que não vai adiantar voltar agora que já chegamos aqui.” falou o justiceiro, mais de olho para o local de onde vieram, de onde poderia vir outros mortos-vivos, do que no local que teriam que ir.

“É o que parece. Vamos, então.” respondeu o arquimago. “Vamos pelo mesmo trilho. Vá na frente, que eu vou garantir que não seremos seguidos.”

O justiceiro, então, começou a andar nos trilhos suspensos, enquanto que o arquimado conjurava uma grande barreira de gelo impedindo qualquer um de chegar nos trilhos que estavam. Falou para o Agent Error que teriam que se apressar, pois a barreira não ficaria ali indefinidamente.

Após uma travessia tensa, devido ao ranger constante das madeiras dos trilhos, chegaram ao outro lado. Lá, mais vagões de carvão caídos pareciam impedir o uso dos trilhos, mas também pareciam ajudar a manter os trilhos no lugar, o que era bom para ambos. Andaram mais para dentro da mina, procurando novos sinais do que estavam caçando, mas não encontraram nada.

“A trilha sumiu. Será que quem estamos seguindo não conseguiu atravessar os trilhos?” indagou o justiceiro. “Não havia sinal de luta do outro lado, então não acho que o anão tenha caído.”

Antes que o arquimago respondesse, ambos sentiram um calafrio subindo suas costas. Um som de vento se fez ouvir, o que era estranho, considerando que estavam em uma mina. Tariel olhou para o chão, e viu uma fina névoa azulada se formar no chão.

“Cuidado!!” alertou seu companheiro quando reconheceu a névoa. “É uma Névoa!!”

Quando o arcanista disse o nome da criatura, a fina névoa azulada se encolheu e se concentrou, assumindo uma coloração roxa, trazendo partes de telas de metal e peças dos vagões para dentro de si, e elevando-se como se fosse uma criatura de pesadelo. Seu corpo parecia formado de vento e detritos espiralando, e a todo momento parecia se reformar e deformar. O estranho corpo moveu-se na direção da dupla.

O justiceiro rapidamente prendeu os revólveres nos coldres de trás e pegou os da frente, com munição normal, e começou a disparar na direção da criatura. Cara tiro certeiro parecia ferir a criatura, pois ela diminuia o avanço e emitia um som como de um uivo no vento que ela gerava. Ao mesmo tempo, Tariel invocava lanças de fogo na direção da criatura, tentando diminuir a quantidade de material que formava seu corpo.

Tariel pegou em sua pequena bolsa uma gema azul, como as que sacerdotes usavam para invocar portais. Fazendo sinal para o justiceiro cobrir os olhos, jogou a gema para a criatura que, com uma espécie de tentáculo de vendo, capturou a gema e a levou para dentro do seu corpo. No momento que a gema sumiu nos detritos, o arquimago levantou os braços para o alto e a criatura explodiu em uma enorme coluna de fogo, que ia do chão onde estava até o teto da mina.

“Isso deve resolver este problema.” falou o arquimago. “Vamos, agora, pois acho que essa pirotecnia vai atrair mais problemas, se não formos rápidos.”

Ambos correram mais para dentro da mina, deixando a coluna de fogo para trás, que certamente iria atrair para lá mortos-vivos. Com sorte, as criaturas pouco inteligentes seriam atraídas pelo fogo e acabariam se queimando também, enquanto a coluna de fogo durasse.

Adentrando um pouco mais, a dupla encontrou o que estava procurando, embora não da forma que esperavam. Havia um anão no fundo da mina, mas ele estava acorrentado à parede pelos braços e pernas. Suas roupas estavam bem rasgadas e cortadas, e era possível ver vários cortes em seu largo tórax. Alguns cortes eram recentes, com sangue ressecado, outros eram mais antigos, mas aparentemente todos feitos por um chicote ou algo semelhante. Dava para ver que o anão respirava, mas sua respiração era lenta e profunda, como se dormisse.

Quando o justiceiro se aproximou do anão, sentiu um estalar às suas costas, vindo de uma área mais escura da câmara que estavam. O arquimago ampliou a chama e colocou-se de frente ao local de onde partira o ataque, enquanto Agent Error mirava suas pistolas na mesma direção.

“Eu sabia que, cedo ou tarde, alguém procuraria por ele.”

Com o som típico de metal tocando metal, a pessoa que estava coberta pelas sombras deu dois passos a frente, se revelando na luz da chama de Tariel. Era um homem alto, usando uma armadura de metal cinza-azulada, com uma capa vermelha jogada para trás, um tanto rasgada. Uma espécie de elmo cobria a parte da frente de sua cabeça, mas seu rosto estava todo à mostra. Seus olhos eram completamente brancos, sem pupila, e marcas como quem chora sangue desciam de suas órbitas. Sua mão esquerda estava vazia, mas a mão direita segurava o chicote que gerara o som e que, certamente, havia marcado o corpo do anão.

“O que é você, criatura?” perguntou o justiceiro, engatilhando suas armas, apontadas para o cavaleiro à sua frente. “O que está fazendo com o anão?”

“Ora, estou apenas me… divertindo, um pouco.” respondeu o cavaleiro, com um tom lascivo na voz. “E eu sou apenas um mensageiro.”

O chicote que estava na mão do cavaleiro encolheu e ficou rígido, se transformando em uma espada longa, com uma aura negra ao seu redor. Debaixo da capa, asas escuras, como que feitas de sombra, surgiram e começaram a bater, fazendo a criatura flutuar no ar.

“E o recado que trago é: abandonem suas ideias. Desistam de seus planos e não sofrerão.” falou o cavaleiro alado. “Bom, o recado era, na verdade, para o anão. O recado pra vocês é mais simples.”

Voando na direção do arquimago, que estava apenas olhando enquanto concentrava energia arcana em sua mão, o cavaleiro investiu em uma estocada contra o arcanista. Com um movimento rápido com a mão esquerda, Tariel colocou uma barreira de fogo entre ele e seu oponente, e com a esquerda fez explodir uma supernova de sua chama, impedindo completamente o ataque que vinha contra si e jogando o anjo negro para trás. Ao mesmo tempo, Agent Error descarregou suas duas armas na criatura, que chiou a cada tiro e ainda mais com a chama que atacou seu corpo.

Quando a criatura recuperou-se dos ataques, Tariel estava novamente com a chama rodeando seu corpo e o justiceiro já havia soltado suas armas e pego as armas que carregava atrás, carregadas com munição prateada. Desta vez, o anjo investiu contra o justiceiro, tentando cortá-lo com sua espada, mas este desviou rapidamente para o lado, disparando alguns tiros contra seu corpo, que desta vez pareceu sentir mais, pois os buracos dos tiros agora soltavam fumaça negra, muito semelhante ao efeito de tinta negra em água cristalina. Tariel aproveitou a situação de combate para preparar uma magia maior.

“Vou mantê-lo ocupado! Tente soltar o anão!” gritou o arquimago para seu companheiro.

Da mão esquerda do arcanista partiu uma esfera de gelo que criou um rastro de ar congelado até atingir o anjo negro, que ficou preso em um cristal azulado. Assim que seu oponente congelou, Tariel disparou de sua mão esquerda uma esfera elétrica que envolveu o anjo congelado e o jogou contra a parede da gruta, eletrocutando-no com mais violência pelo estado congelado que se encontrava.

Enquanto o justiceiro voltava para ajudar o anão, Tariel começou a invocar mais e mais esferas elétricas, disparando contra o cavaleiro, que estava visivelmente sentindo o ataque incessante do arquimago. Cada uma das esferas elétricas parecia, além de eletrocutar o corpo todo do oponente, esmagá-lo contra a parede. Agent Error quebrou as correntes que prendiam o anão com o cabo de suas armas e o ajudou a ficar de pé, dentro do que suas forças permitiam.

O anjo negro, ainda sendo açoitado pelo ataque incessante de Tariel, conseguiu aproveitar uma brecha curta no ataque para teleportar-se para o outro lado da gruta, numa tentativa de pegar o perigoso arquimago em um ataque por trás, mas não contou com a agilidade do justiceiro. Assim que ele apareceu do outro lado de Tariel, a única coisa que viu foram os dois canos das armas gêmeas do justiceiro. Este simplesmente pulara para trás do companheiro, como se adivinhasse qual seria o movimento do anjo. E puxara os gatilhos.

O que era antes a cabeça do anjo, agora era apenas um monte de fumaça negra se espalhando pelo local, seguido do restante de seu corpo, que se desfazia em uma espiral de fumaça. A fumaça começava a tomar uma forma vagamente humanoide, mas muito maior do que o anjo, e ela parecia que iria engolfar todo o local e os três que ali estavam, se não fosse uma nova explosão de chamas do arquimago, que pareceu dissolver a fumaça negra de uma vez.

Assim que Tariel invocou uma nova chama, para repor a que explodira na supernova, foi possível ver o quanto ele estava cansado. Escorria suor de sua testa e ele ofegava. Visivalmente a prisão elétrica havia exigido demais do arquimago, mas tinha cumprido seu papel.

“Precisamos voltar para a superfíce agora, Tariel.” falou o justiceiro, guardando suas armas nos coldres e pegando as armas que soltara no chão. “Você não parece em condições de lutar por muito mais tempo, e o anão não parece estar muito melhor.”

“Irei melhorar, obrigado.” respondeu o ofegante arquimago. “Apenas gastei muita energia. Mas temos que levá-lo. Uma pena que Elenna não veio conosco, ela poderia nos transportar para o lado de fora em segurança.”

“…telo…” murmurou o anão, aparentemente voltando a si. “Mar… tel…”

Tariel olhou para o anão, e pegou o martelo de ferreiro que encontrara no monte Mjolnir mais cedo. Entregou para o anão, que esticava sua mão direita com algum esforço, mesmo achando que ele não teria força para segurá-lo. Assim que o anão pegou a ferramenta, começou a respirar mais normalmente e levantou-se.

“Estou em dívida com vocês, guerreiros.” falou o anão, visivelmente recuperado. “Voltarei para junto dos meus.”

Falando isto, o anão bateu de leve o martelo na parede da mina, e uma lasca em formato de diamente perfeito caiu em sua mão. Ele entregou para o arquimago, falando que quando fosse a hora, ele poderia usar aquela rocha para invocá-lo e cobrar sua dívida. Tariel agradeceu e guardou a pedra, que começava a transformar-se em um cristal.

Em seguida, o anão ajoelhou-se e bateu com força o martelo no chão, e os três foram tragados pela terra, como água sendo sugada por um ralo. No instante seguinte, estavam ambos os aventureiros do lado de fora da mina, perto da entrada, enquanto que o anão havia desaparecido.

“Bom, parece que nossa missão foi um sucesso, não?” falou o justiceiro, guardando as armas no coldre normal. “Hora de voltarmos para Prontera e esperar os demais. Acho que você merece um descanso.”

“Tem razão.” respondeu o arquimago, retirando de seu bolso, onde guardara a pedra, um par de asas de borboleta, e entregou para o justiceiro uma delas.

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Apr 252013
 

A maga fechou o livro em sua mão. Levantou os olhos, e viu que havia passado bastante tempo já. A taverna de Exodar estava vazia, exceto pelo taverneiro, que limpava o balcão distraidamente.

Havia encontrado um diário de viagem único. Não sabia, agora, se deveria devolver o diário para o lugar que havia encontrado, ou se deveria devolver para sua verdadeira dona. Mas por onde andaria esta Kaliope? Poderia estar em Azeroth, Draenor, isso levando em consideração que ainda estava viva. Mas não acreditava que ela teria morrido. Não depois de tudo que passara e descrevera no diário.

Intrigante era a forma com que o diário acabara. Os elfos todos de Darnassus dormindo? Ela mesmo havia dito que estava cansada, e ela não parecia ser do tipo que reclamava de cansaso com frequencia. Foi então que toda sua pesquisa fez jus.

- O Pesadelo! – sussurrou pra si mesma. – A anomalia do Sonho Esmeralda… Foi esta a época que o diário foi depositado ali…

A maga embrulhou novamente o diário na tabbard, da melhor forma que conseguiu, juntou suas coisas e mentalizou Darnassus, singrando o éter até a maior cidade dos Elfos Noturnos. Lá certamente encontraria mais respostas e, quem sabe, mais dicas de onde encontrar a xamã para conhecê-la.

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Apr 182013
 

Esta deve ser minha entrada final neste diário. Estou finalmente em Teldrassil, em uma área ao norte, próximo a um dos riachos que se formam aqui. Soube que estes rios e córregos são alimentados pela umidade que a grande árvore recolhe em suas folhas. Este tipo de situação que faz com que pessoas como a Lys amam este lugar.

Achei que este local seria perfeito para deixar Lysanthia. Me aproveitei que o dia estava surgindo e as atividades dos elfos começassem a diminuir para entrar pelo vilarejo aos pés da árvore e usar o portal que conecta à Darnassus. É praticamente impossível escalar a árvore por fora, então tive que me manter na forma espectral e entrar. As sentinelas, é claro, me notaram, mas não pareceram se incomodar com minha presença. Elas pareciam estar quase dormindo.

Aliás, todos pareciam estar meio dormindo por aqui, fora alguns sentinelas. Estranho, devo dizer. Mas pelo menos ajudou a chegar neste refúgio e deixar as cinzas de Lys neste local.

Acho que esta viagem me cansou mais do que eu esperava. Hora de terminar estas memórias e, talvez, começar uma nova.

Espero que as proteções elementais que deixei na tabbard sejam suficientes para proteger estas memórias, e que isto permita que Lysanthia permaneça viva na memória de alguém.

Kaliope

 Posted by at 13:00
Apr 182013
 

O som de metal sendo batido em metal era uma constante naquele canto de Geffen. A casa, a sudeste da parte baixa da cidade dos magos, fora há alguns anos a capital dos ferreiros do reinado, antes da guilda dos ferreiros migrar para a cidade de Einbroch. Mas alguns ferreiros ainda a utilizavam como entreposto, ou simplesmente oficina.

O arquimago parou na frente da loja, para observar por algum tempo. O jovem à sua frente mantinha uma longa peça de metal de forma meio indefinida em cima da bigorna, e martelava compassadamente o objeto. O martelo, curto demais para ser usado como uma arma, soltava faíscas ao bater no metal aquecido. Na outra mão do ferreiro, uma pinça segurando a peça de metal sendo martelada.

Quando o ferreiro parou de martelar e colocou a peça de metal de volta na fornalha que ardia ao seu lado para aquecer novamente, ele notou o arquimago e deu um sorriso.

“Tariel, meu caro, como está?” falou o ferreiro, escorrendo o suor com as costas do braço, espalhando a fuligem em seu rosto já sujo.

“Estou bem, Toki.” respondeu o arquimago. “O que está criando hoje?”

“Ah, apenas uma espada curta.” respondeu o ferreiro, olhando novamente para a peça de metal, que adquiria novamente uma colocação rubra. “Nada de mais, na verdade, apenas para vender na grande feira de Alberta, daqui a alguns meses.”

“O espírito mercador nunca abandona o corpo de um ferreiro, me faz parecer.” retrucou o arquimago, com um sorriso.

“Há! Jamais, Tariel. Jamais.” respondeu o ferreiro, com um riso tranquilo. “Mas creio que não veio apenas conversar ou aprender o ofício, certo? Deseja encomendar algo? Uma faca, talvez?”

“Hoje quero apenas conhecimento, Toki.” falou Tariel. “Pode me dizer quando terá algum tempo para me auxiliar?”

“Um arquimago precisando de um ferreiro para aprender. Nunca achei que este dia chegaria…” respondeu o ferreiro. “Ainda estou no começo do trabalho, então posso terminar depois, se desejar. Ainda levarei boas horas para moldar a lâmina, então o cliente decide.”

“Certo. Então vamos andar.” respondeu o arquimago.

Toki pegou a peça de metal que estava no fogo e colocou em um barril d’água para esfriar. A água chiou e gerou uma nuvem de vapor, enquanto esfriava a peça o suficiente para que o ferreiro a deixasse ao lado da fornalha. Prendeu seu martelo na cintura e, em uma tina cheia de água, lavou as mãos, braços e rosto, limpando-se o suficiente para andar com o arquimago.

Tariel conduziu o ferreiro pelas ruas de Geffen até a saída oeste da cidade. Explicou que queria alguma privacidade para conversar e, mesmo que a cidade não fosse tão agitada quanto Prontera, ainda havia muita gente por ali. Na área externa, a leste da cidade, haviam alguns postos de observação que jovens magos utilizavam para aprender sobre astronomia e, dada a tranquilidade do local, ler um pouco. Seria perfeito para que ambos conversassem tranquilamente.

O observatório era uma espécie de ilhota flutuante, que escondia-se nas nuvens. Uma série de ilhotas serviam de escada para alcançar o lugar, onde era possível encontrar um grande telescópio em um gazebo, com espaço para não mais do que cinco pessoas por vez. Como Tariel esperava, estava vazio, naquele momento. Toki, acostumado com o calor das fornalhas e do trabalho pesado, achou que o lugar era muito frio, mas que realmente era um lugar calmo.

“Bem, jovem, vamos direto ao assunto.” começou a falar Tariel, apoiando-se em uma das cercas do gazebo. “O que sabe sobre os chamados itens divinos?”

“Itens divinos…” ponderou um tempo o ferreiro. “Na verdade, não gosto de chamá-los de itens divinos, mas itens próximos aos divinos, já que são cópias dos originais. Mas é apenas uma questão de como os vejo. Mas certo, vamos lá.”

Toki imaginava que Tariel soubesse sobre a existência dos artefatos. Mas ainda assim explicou sobre eles. Começou falando sobre o Sleipnir, os calçados que levavam o nome do garanhão que servia de montaria para Odin; eles eram capazes de emular no usuário as habilidades da lendária montaria, como aumentar o vigor e até mesmo sua velocidade de locomoção. Em seguida, falou do cinturão que o próprio deus do trovão utilizava, o Megingjard, que diziam as lendas ser um cinturão capaz de triplicar a força de quem o usava. O artefato era tão poderoso que um dos itens necessários para sua produção era outro artefato como este, o Glepnir. Este era, por sua vez, o cordão – ou corrente, dependendo da lenda ouvida – mais resistente possível, utilizado para prender Fenrir, o lobo do fim dos tempos.

Já o Brisingamen, o colar mais belo que já existiu em todos os reinos, era capaz de aumentar as habilidades divinas do usuário, invocando a bênção de Freya, a deusa da fertilidade e do amor, diretamente através dele. E, por fim, o lendário martelo de Thor, Mjolnir, o malho divino do trovão e da tempestade. Segundo a lenda, aquele que emunhasse o martelo teria uma fração do poder do próprio Thor à sua disposição.

A grande questão sobre os artefatos era sua produção. Mesmo que fossem apenas cópias dos artefatos divinos, nenhum ferreiro mortal era capaz de criá-lo, não importa o quanto o ferreiro conhecesse sobre a arte da forja. Assim como os itens originais, apenas os lendários anões ferreiros eram capazes de criar estas cópias. Considerando que o arquimago tivesse os raros itens para a criação dos artefatos, teria que encontrar os anões e ainda convencê-los a fazer o serviço, que era uma tarefa tão complicada quanto fazer qualquer um dos itens.

Tariel passou as mãos nos cabelos, como se os penteasse para trás, pensativo. Acreditava que, talvez, Toki pudesse se juntar a outros ferreiros, como Dorei ou Christian, para criar o Gleipnir, considerando que as frentes que a Duality criara cumprissem suas missões. Mas teria que encontrar um anão e convencê-lo a criar o item. Pelo visto, sua missão seria tão complexa quanto as dos demais.

Tariel agradeceu ao ferreiro uma vez mais pelas informações, e disse que tornaria a procurá-lo caso precisasse de mais alguma coisa. Toki, como sempre, garantiu que estaria a disposição quando fosse necessário. Após despedir-se um do outro, Toki desceu as plataformas para voltar ao seu trabalho, enquanto que Tariel permaneceu no lugar, pensando. Precisaria de ajuda para procurar pelos anões, então pegou uma asa de borboleta de seu bolso e esmagou em suas mãos.

Uma vez em Prontera, o arquimago seguiu para a Catedral, para procurar Elenna. Ela certamente teria como auxiliar em sua empreitada ou, ao menos, contactar alguém da Duality para auxiliá-lo. Próximo à entrada da Catedral encontrou pessoas que talvez pudessem auxiliar até mais que a sacerdotisa.

“Ora, se a providência não me agracia com mais do que eu esperava.” falou o arquimago, chamando atenção do grupo que conversava.

Elenna estava do lado de fora da Catedral, conversando com a antiga líder da Duality, Aisha. Ao lado da Atiradora de Elite estava seu marido, o templário Leonard, o casal Haagen e Lilith e o Justiceiro conhecido como Agent Error. Os cinco olharam para o arquimago quando este chegou e se anunciou.

O grupo estava justamente discutindo o assunto que Tariel precisava conversar. Elenna estava explicando a sua prima o que a Duality estava fazendo, pare que Aisha pudesse conversar com a líder de sua guilda, a Sumo-sacerdotisa Jelanda, sobre o que poderiam fazer para ajudar na situação atual. Tariel aproveitou para explicar o que havia conversado com o ferreiro há pouco, e sobre o que precisariam fazer para deixar tudo pronto para quando os aventureiros voltassem com os itens.

Assim que Tariel falou sobre os anões ferreiros e seu importante papel nesta situação, a odalisca Lilith olhou para seu marido, indagando com o olhar se ele conhecia alguma coisa sobre o assunto. Notando o olhar, Tariel olhou também. Independente de sua idade, e do tempo que passara nas mais diversas bibliotecas e fontes de conhecimento, nada igualava-se ao conhecimento dos bardos quando o assunto eram lendas e histórias há muito esquecidas. Haagen pensou alguns instantes, e puxou seu bandolin, tocando algumas notas como se conferisse se estava afinado. Respirando fundo, começou a recitar um poema, acompanhado por notas em seu instrumento.

“Tyr e o Lobo, para sempre mudados
Para proteger e permitir o porvir
Um teve mão e braço amputados
Para o outro prender-se com o Gleipnir.

Tal fio foi criado pelos mestres da forja
Que força alguma pudesse partir
Apesar do intuito de encher sua alforja
Decidiram migrar para o monte Mjolnir.

Dobravam os ventos, queimavam a água
Paravam o fogo e viviam da terra
Evitam humanos e toda sua mágoa
No meio do mato evitam a guerra.”

“Às vezes me pergunto quem cria este tipo de rima.” comentou o justiceiro, ao final do canto do bardo. “Sem querer ofender, Haagen.”

“Não me sinto ofendido, guerreiro.” Respondeu o bardo, colocando o instrumento musical para o lado. “Apenas reconto o que ouço, não são palavras minhas.”

“Certo. Então os tais anões ferreiros estão no monte Mjolnir.” falou Aisha, ignorando a conversa que se seguiu. “Irei para lá com Leonard, então, procurar por estes anões.”

“Ótimo, Aisha.” respondeu o arquimago. “Irei também, mas vou procurar no entorno do monte, na área mais a noroeste.”

“Irei com você, Tariel, se quiser.” falou o justiceiro. “Pode precisar de proteção.”

O arquimago, ainda que acreditasse que não precisaria de ajuda em um local que conhecia bem, aceitou a companhia. Ainda que seus poderes e conhecimento fossem suficientes, certamente ter alguém para cuidar de suas costas era algo a ser considerado. Elenna iria ter com Dorei sobre os próximos passos, acompanhada pelo casal artista.

 Posted by at 09:00
Apr 112013
 

A viagem até este local foi mais tranquila do que eu pensava. Se não me engano, é onde construirão Lor’danel. É um porto que conecta o continente à ilha que se forma com o tronco de Teldrassil. Pensei em seguir até a ilha onde Exodar cairá, mas não tenho informações suficientes sobre o que há por ali. Talvez apenas a fauna natural da ilha, mas não posso colocar em risco com o desconhecido o alaúde que contém as cinzas de Lysanthia.

Ainda não estou em Teldrassil, como almejava, mas precisava escrever antes de continuar minha jornada, que não sei ainda ao certo como completarei. Mas sinto que devo seguir o quanto antes, pois tempo demais se passou entre o momento que a pira onde o corpo de Lysanthia se uniu aos elementos e minha chegada neste local. Temo que esteja muito próxima do monte Hyjal fisicamente, e muito próxima da batalha que ocorreu no local temporalmente.

Para quem estiver lendo, o ritual que realizei me foi sugerido pela Terra, e creio que era assim que os orcs, antes de serem dominados pela Legião, despediam-se de seus familiares. Seu corpo, queimando pela bênção do Fogo, devolveu ao mundo a Água que guardava, enquanto o Ar levava sua essência. A Terra agraciou-me com as cinzas apenas de Lysanthia, de tal forma que apenas ela está dentro da urna que carrego comigo.

Despejarei suas cinzas em Teldrassil, assim seu corpo irá nutrir a árvore que por tanto tempo a nutriu. A urna está enrolada, assim como este diário estará, na tabbard dos Peregrinos, um tesouro para Lysanthia mesmo depois destes anos todos.

Pedi aos Elementos que protegessem seu conteúdo, e eles agraciaram este tecido com sua vontade, de tal forma que poderei atravessar a nado o mar que separa o continente da ilha. Acredito que conseguirei fazer esta travessia, mas precisarei de algum tempo me recuperando próxima às raízes da árvore.

Após esta travessia, saberei o que fazer, tenho certeza.

Uma vez mais, que os naaru me auxiliem.

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Apr 082013
 

Katrina notou que estava num local completamente escuro, sem conseguir definir nada ao seu redor. Curiosamente, conseguia ver seu corpo perfeitamente, mesmo não havendo nenhuma fonte de luz visível. Lembrou vagamente da história que Elenna e Dorei passaram há algum tempo em Niflheim, mas não era hora de pensar nisso.

Tudo indicava que seria provada. O fato de ser um Deviace impondo a prova era apenas um dos muitos fatores que adicionavam estranheza à situação. Resolveu conferir primeiro seus sentidos. Obviamente, sua visão estava funcionando, já que podia se ver; talvez sua cegueira seletiva fosse de origem mágica. Respirando fundo, não sentiu cheiro algum, mas não tinha como confirmar se havia perdido o sentido ou não havia cheiro. Bateu levemente sua longa espada em seu escudo, o que garantiu que tanto seu tato quanto sua audição estavam funcionando perfeitamente, além de confirmar que não havia nenhum outro som ali. O paladar não era importante no momento. Fechou os olhos e invocou uma imagem mental da força que regia sua vida como templária, e sentiu seu calor formando em seu peito: estava completa, o que era uma grande vantagem.

Quando abriu os olhos, havia alguém se aproximando no infinito invisível. Uma silhueta que parecia ser feminina, mas de uma garota jovem. Andava com graça e suavidade, e parecia carregar um arco.

“Olá?” chamou Katrina para quem chegava. “Se perdeu aqui, jovem?”

A resposta da garota foi relativamente simples. Parando a alguns metros de distância, a garota pegou uma flecha e armou o disparo. Katrina teve tempo apenas de trazer seu escudo à sua frente, aparando a flecha com alguma facilidade, já que o tiro havia sido direto eu seu peito.

“Ei! O que está fazendo?” bradou Katrina. “Não sou sua inimiga, querida! Precisa de ajuda?”

A resposta foi uma segunda flechada em seu escudo. Sabia que a garota ouvira Katrina, pois a primeira flechada veio apenas quando a templária falou com ela. E esta conseguia, dado o silêncio quase absoluto do local, ouvir o som da flecha sendo retirada da aljava, o clique quando a flecha encaixava-se na corda do arco, e o som da madeira do arco rangendo ao ser forçado pela tensão do disparo.

“Rajada de flechas!!” gritou a arqueira, invocando a lendária técnica de Payon.

“Aura Sagrada!!” gritou Katrina de volta, invocando a proteção divina.

Uma energia luminosa expandiu rapidamente a partir do escudo espelhado da templária, criando uma barreira de luz à frente dela. As flechas místicas geradas pela habilidade da arqueira foram todas dissipadas pela aura, mas a flecha física disparada passou ao lado do escudo e acertou o braço direito de Katrina, ficando presa na proteção de couro de seu antebraço, pegando de leve a pele, mas sem atravessa. Katrina confirmou, desta vez, que podia sentir dor, e sabia que estava com um sangramento leve.

Mas o que realmente a pegou de surpresa foi a voz da arqueira. O sotaque da região de Payon era inconfundível, mas a entonação era mais do que familiar: era sua própria voz. Aparentemente, a arqueira era ela mais jovem, justamente na época que aprendera a lidar com arcos. Estava sendo atacada por ela mesma, afinal. Mas não houve tempo de indagar, pois o ataque, aparentemente continuaria.

“Chuva de flechas!!” bradou sua contraparte arqueira.

“Bloqueio!!” respondeu a tamplária.

A flecha física disparada desta vez desapareceu em pleno ar, próximo da templária, e explodiu em pequenas flechas em todas as direções. Mas o ataque fora evitado uma vez mais com uma habilidade que aprendera como templária, que fazia o escudo gerar uma onda de energia à sua frente, desintegrando os flechetes e garantindo sua segurança. Um leve sorriso surgiu no rosto da templária, ao lembrar que nunca havia dominado realmente a técnica, felizmente.

Katrina, a templária, correu em direção à arqueira. Não esperava que a sua contraparte mais nova fosse ficar para sempre à distância, ou apenas atirando diretamente. Não iria arriscar ser morta ali, no meio de sua missão, ainda mais por uma jovenzinha que não tinha vontade de aprender a usar o arco.

Sua contraparte jovem não tentou correr. Era realmente como a templária se lembrava: ela ficava parada, atirando, contando que pessoas ao ser redor tomassem conta dela. Assim que chegou perto, aparando duas flechadas com seu escudo, investiu contra a arqueira usando o peso de seu escudo como arma. Esperava derrubar a garota e desarmá-la, para poder entender o que estava acontecendo. Para sua surpresa, não foi o que aconteceu.

O choque do escudo com a arqueira gerou uma explosão silenciosa de luz, jogando a templária para trás. Levantou-se rapidamente, com a espada em mãos, para ver que nada sobrara da arqueira. E nem de seu escudo. Seu braço esquerdo agora continha apenas a armadura, nem mesmo os restos de seu escudo existiam. Antes que pudesse indagar o que havia acontecido, um estalo seguido de um puxão violento no braço direito a fizeram girar sobre seus calcanhares e dar de cara com outro oponente.

Ela vestia roupas curtas demais, apresentava um corpo escultural, seus longos cabelos loiros pareciam dançar suavemente com seus movimentos precisos e diretos. Em sua mão direita, um chicote vermelho esticado, cuja ponta estava enrolada no braço ferido da templaria. Enfim sua contraparte odalisca aparecia.

Puxando com força o braço direito, e sentindo a dor da flecha aumentando,a templária desequilibrou por alguns segundos sua contraparte odalisca e, com um curto movimento, fez o chicote se desenrolar de seu braço. Usara bastante tempo aquela arma para saber como se livrar dela. Infelizmente, a sua contraparte também usara o mesmo tempo o chicote.

Sem escudo para se proteger, Katrina deu dois passos para trás, para tentar sair do raio de ação da flexível arma. Com a mão esquerda, quebrou o cabo da flecha que estava em seu braço, deixando apenas a parte que havia penetrado na armadura e em seu braço. Pegou a espada com a mão esquerda, para tentar se defender, já que a direita estava sem forças. Sem o escudo, teria que se virar com sua arma. Não que o escudo fosse defendê-la do ataque que viria a seguir.

“Sai fora daqui!!” gritou a odalisca para a templária.

Katrina imadiatamente soltou sua espada no chão, ajoelhou-se e colocou as mãos para cobrir seus ouvidos. Não fora apenas um grito, mas sim um ataque mágico típico das odaliscas, feitos para incapacitar oponentes. Atingia com força os ouvidos, trazendo uma dor aguda e parecia reverberar por todo seu crânio por muitos segundos preciosos. Segundos suficientes para sentir que seu rosto havia sofrido um corte feito pelo chicote de sua oponente, passando muito perto de seu olho. Sentia o calor do sangue que começava a sair do novo ferimento, e isso a ajudou a desconsiderar a dor nos ouvidos.

Levantou-se rapidamente, e pegou a espada no chão com a mão esquerda, colocando a mão direita à sua frente para aparar o novo ataque do chicote. Sentiu a açoitada pelas luvas de couro, que resistiram ao ataque, e agora estava armada. Novamente correu para cima de sua adversária, tentando atacar com uma estocada, mas a odalisca era rápida demais para sua mão canhota.

Cada ataque que a templária tentava, a odalisca conseguia esquivar. Katrina não era hábil o suficiente com a mão esquerda, mas ao menos conseguia evitar que a odalisca usasse seu chicote. E sabia que o esforço nas cordas vocais do ataque sonoro exigia algum descanso antes de ser feito novamente. Mas tinha que acertar a odalisca antes que ela conseguisse atacar novamente sua audição, que ainda estava prejudicada.

Durante um de seus ataques, Katrinca trocou a espada de mão e, invocando todo o vigor que possuía para ignorar a dor e fechar direito a mão machucada no punho da espada e deu dois fortes ataques seguidos, banhados pela força divina, para encurralar a odalisca. E, novamente, ao atingir sua contraparte, uma explosão silenciosa a jogou para trás, fazendo desaparecer sua contraparte e, desta vez, sua arma.

Não houve surpresa, entretanto, ao sentir uma presença atrás dela. Pela lógica, seria ela espadachim, quando abandonou a vida de odalisca. Mas não era. Era ela mesma, como templária, usando um enorme escudo e uma espada como a que perdera. Não teria como ganhar dela mesma como templária, sem ter equipamentos.

“Qual é o motivo disto tudo?” perguntou a verdadeira Katrina, colocando a mão sobre o ferimento da flecha, para tentar acalmar a dor. “Por que tenho que combater eu mesma?”

“Não é você mesma que combate, Katrina Hearth.” respondeu sua imagem.

“Então…” respondeu a templária, tentando entender. “Então estou lutando contra meu passado?”

“Não luta contra seu passado.” respondeu novamente a imagem, levantando a espada e apontando para a verdadeira templária.

“Não entendo.” respondeu Katrina, pensando fervorosamente em como se defender dela mesma.

“Não está focada no que tem que fazer.” respondeu a imagem. “Enquanto houver dúvidas, haverá desafios instransponíveis. Pereça, então.”

Falando isso, a imagem atacou Katrina com a espada, com uma estocada. Desviando para o lado, a templária evitou a perfuração, mas não o forte golpe com o escudo em cheio em seu peito, sendo jogada para trás. Sua armadura absorvera o impacto, mas por pouco não ficou sem ar. Estava, realmente, sendo descuidada.

Novo ataque da imagem, novo desvio, desta vez para trás. Para os lados ficaria à mercê da espada ou do escudo. Ao menos com alguma distância poderia evitar um golpe letal. A menos que…

“Escudo bumerangue!!” gritou a imagem, disparando seu escudo em direção à templária.

A técnica era uma das favoritas da templária, e a única que permitia que ela atacasse de longe. Instintivamente, a original levou a mão esquerda à frente para se defender, o que lhe rendeu um braço quebrado na hora. A armadura, novamente, havia protegido contra uma fratura mais grave, mas a dor que sentia com o ataque do escudo, que retornava agora para a imagem, indicava claramente que acabava de perder o braço esquerdo. Não gritou, mas não pode conter uma lágrima de dor que escorria em sua face. Mas a lágrima partira de olhos finalmente confiantes e certos do que havia a ser feito.

Ainda sem demonstrar nenhuma expressão, a imagem investiu diretamente contra a original, em um novo ataque de estocada. Aproveitando que a Katrina original estava no chão, de joelhos e segurando o braço quebrado com a mão ferida, a imagem executou uma ação letal.

Diferente do esperado, foi letal para si mesma, já que no momento que se aproximou da templária original, esta invocou uma enorme cruz de luz no chão, que espalhou a vontade divina de retribuição e punição para os oponentes. Sendo uma oponente para Katrina, e não esperando este ataque, a imagem levou todo o dano possível da técnica, enquanto que a Katrina original sentia o fluxo de sangue em suas feridas aumentar, por conta do refluxo de energia que a habilidade causava todas as vezes.

“Tinha razão.” falou em voz alta a templária. “Eu não devo esquecer qual é meu dever, e qual a minha missão. E, acima de tudo, o por quê de eu ter aceito tal missão.”

Ao falar isso, foi cegada por uma nova explosão de luz silenciosa. A sensação de água invadindo seus pulmões voltou, a fazendo se debater por instantes temendo por sua vida. Mas não havia perigo iminente. Estava de volta à frente do Deviace, que flutuava à sua frente.

“Agora entendo seus motivos, humana Katrina.” falou a criatura. “Nobres são seus motivos, se arrisca tudo que tem pelo que acredita.”

Katrina notou que seus braços estavam intactos. Sentia um pouco de dor ainda onde havia se ferido, mas os ferimentos em si haviam sumido, aparentemente. Mas estava sem seu escudo e sem sua arma, e sua armadura estava danificada do combate, então não havia sido um sonho.

“Sim. Não bradaria minha espada, ou colocaria minha vida em risco por algo que não valesse, Deviace.” respondeu a templária.

“Pois bem.” respondeu a criatura, olhando atentamente para Katrina com seu único olho. “Vá em paz, e que os frutos que colher sejam condizentes com o que acredita.”

Ao falar isso, dois Stroufs apareceram atrás do Deviace, vindos de dentro da ruína. Um deles carregava uma urna que só podia ser seu objetivo. Este se aproximou do Deviace, que colocou sua boca na urna e, depois de um momento, a lacrou. O Strouf então entregou para a templária a urna, que mesmo ressabiada, aceitou.

“Eles irão conduzí-la novamente à superfície, humana Katrina.” falou então o Deviace, que voltou-se para a ruina e começou a flutuar.

“Obrigada.” limitou-se a responder a templária, pensativa.

Sem suas armas, mesmo a presença dos Stroufs seria bem vinda, enquanto estivessem do seu lado. Apoiou a urna no braço esquerdo, que doía mais, e seguiu andando para a saída, seguida de perto pelos guerreiros dos mares, que foram fiéis às ordens da estranha criatura que ensinara tanto à guerreira.

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Apr 042013
 

Comecei este diário com a intenção de contar o que se passou e, por mais que agora eu sinta que não tenho mais razões para continuar a fazê-lo, vou me ater a esta intenção como a única razão.

Aconteceu algo que eu sabia ser inevitável, mas não havia como me preparar. Ao meu lado está o corpo inerte de Lysanthia Lafianna, druida, ex líder dos Peregrinos do Tempo, mentora de muitos e, acima de tudo, uma irmã desta draenei. Não acredito que eu tinha como me preparar para seus últimos momentos, mas não importa: a sensação de vazio é grande demais.

Não creio que existam rituais para os mortos entre os elfos, mas sei que o local que Lys mais amava era Darnassus, em Teldrassil. Está a meio continente daqui, e eu ainda não sei ao certo como farei para transportá-la, mas pretendo que, a próxima vez que eu escrever aqui, eu esteja na grande árvore, lar dos elfos.

Que os naaru me ajudem na tarefa que tenho à minha frente. E que os espíritos me guiem no meu primeiro e, espero, único ritual de despedida que farei agora, antes de partir para o norte.

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Mar 282013
 

Lysanthia está morrendo. Não tenho dúvidas disso. O que mais causa estranheza é o fato que ela está morrendo de velhice, como uma das raças mortais. Agora entendo o que havia de diferente nela há tanto tempo atrás.

Tive que tirar ela da sua confortável vida em Feralas, contra sua vontade. Os elfos nunca viram um dos seus envelhecer, e não acho que isso será bom para eles. Ainda não há notícia de nenhum evento grande, mas o Vento sussurra em meus ouvidos que algo acontece. A Terra em meus pés me indicam que algo está acontecendo, mas preciso resolver o que fazer com Lysanthia.

Depois de tudo o que passamos, de tudo que aprendemos, não consigo ver uma saída. Ainda que eu entenda que a morte é apenas uma das voltas do ciclo da vida, e já tenha visto muitos encerrarem seu ciclo à minha volta, não consigo evitar a sensação que não quero que ela se vá. É minha última conexão com o tempo de onde viemos, e a única que me vê como eu sou de verdade, além de meus oponentes e inimigos.

Lys insiste em dizer que eu não tenho que me preocupar, mas é impossível. Estamos agora em uma pequena caverna em Mil Agulhas, onde posso deixá-la descansando por algum tempo enquanto coleto alimentos, e também tenho como proteger-nos dos centauros e outras feras.

Não consigo escrever mais.

 Posted by at 13:00
Mar 282013
 

A cidade de Amatsu era outra das ilhas-reinados que possuía contrato comercial com o reino de Rune-Midgard. Sua arquitetura palacial peculiar, com predominância de branco e azul, de linhas retas em todas as muralhas, mas curvadas nos telhados a tornava única. Os casebres mais simples constratavam com o castelo por serem muito simples, com as paredes feitas de um papel leve sustentado por ripas de madeira ou bambu, com desenhos coloridos e de cunho histórico apenas adicionavam a visão única que a ilha oferecia.

Somando a tudo isto, haviam ainda as árvores-símbolo de Amatsu: arvores altas, com pequenas flores de cinco pétalas rosas, chamadas cerejeiras. Estas árvores permeavam toda a ilha, onde velhos e jovens espreguiçavam-se languidamente em tatames, aproveitando o sol que brilhava. Mercadores cuidavam de suas lojas, varrendo a entrada, expondo seus materiais de forma silenciosa e calma, o que certamente era um enorme contraste com as feiras que aconteciam em Prontera.

Não que isto fizesse diferença para a garota que andava em direção ao palácio imperial. Com os passos decididos, de quem já sabe o que tem a fazer, a Sábia ignorava os pedidos das crianças, que vestiam os tradicionais kimonos de Amatsu. As crianças, desde que os reinos haviam se tornado parceiros comerciais, esperavam ansiosamente os aventureiros para que lhe contassem histórias, ou mostrassem pirotecnias das mais diversas formas. Obviamente, os arcanistas eram os favoritos das crianças. Mas Dark Alice não tinha tempo para estas frivolidades. Se as crianças quisessem pirotecnia, certamente haveria algum bruxo nas redondezas mais do que disposto a fazer um show de luzes e barulho.

Mas o objetivo da garota não era o palácio em si, nem mesmo algo relativo diretamente ao imperador de Amatsu, mas um prédio que havia ali, algo que sempre a atraiu: a biblioteca. Paredes de livros e papiros, mesas baixas com futons – pequenas almofadas quadradas, recheadas de lâminas de algodão, geralmente confortáveis para sentar – e silêncio. Se havia algo que era comum a todos os seres humanos, não importa a nacionalidade, era que crianças geralmente não gostavam de livros.

Dark Alice comprimentou com o olhar a senhora que cuidava da biblioteca, e seguiu direto para a prateleira do fundo, mais oposta à entrada. Pegou um grosso livro com capa de couro e travas de metal, e trouxe para perto de si dois papiros que estavam mais altos do que sua mão alcançava, usando uma magia simples de movimentação. A mesma magia que usou para passar os livros espalhados na mesa mais próxima para outra mesa, pois usaria aquela. Assim que sentou-se e cruzou as pernas, a senhora trouxe a ela uma pequena caixa de bambu, deixou na mesa e voltou para o balcão.

A Sábia abriu a caixa e pegou a chave de metal que ali continha. A chave serviu perfeitamente, como esperado, na fechadura do pesado livro que pegara, e a garota começou a folhar página por página, olhando rapidamente desenhos, palavras e ideogramas. Ao mesmo tempo, como que distraida, esticava os papiros com sua mente, mantendo-nos flutuando aos seus lados. Comparava desenhos e ideogramas do livro com os papiros a todo momento, fazendo anotações mentais.

Após cerca de duas horas de esforço contínuo, a sábia tirou o pequeno óculos que usava e passou os dedos na ponte do nariz, fechando os olhos e respirando fundo. Não precisava realmente dos óculos, mas eles facilitavam sua leitura, ajudando a focar em detalhes de desenhos e escrituras. Havia encontrado o que precisava, afinal. Nada como conhecer a biblioteca em questão, pensava consigo mesmo. Se havia algo que a Sábia se orgulhava na vida era justamente fazer jus ao termo que sua classe de arcanistas era conhecida.

Guardando o pequeno óculos em sua bolsa, Dark fechou o tomo e o trancou, pegou os dois papiros do ar e os enrolou, amarrando novamente com as fitas de couro, e os colocou no lugar. Guardou a chave na caixa e levou até a senhora da entrada, colocando no balcão e agradecendo à maneira de Amatsu: juntou as palmas das mãos uma na outra à sua frente, e curvou-se para frente. Em seguida, virou-se e saiu da biblioteca.

Aproveitando a saída leste do palácio imperial, que passava por trás da maior parte da pequena cidade, seguiu direto para o portal ao norte da cidade. O portal marcava a divisão entre a cidade e a entrada para a área pantanosa da ilha, onde havia um templo que tinha a resposta para sua missão.

Árvores de diversos tipos marcavam a área após o portal. Ainda que não fosse ainda a área pantanosa em si, o ar já era úmido e o coaxar constante de sapos e o trilar das cigarras enchiam o ar com suas notas complementares. A Sábia estava alheia à beleza da cena, pois conhecia a área a sabia que aquilo era só uma fachada para a verdadeira natureza do local.

E foi justamente esta capacidade dissociativa que fez com que a sábia esquivasse do ataque que sofrera. Dando um salto ágil para o lado, viu o risco que o ataque fez no chão de terra batida. Uma linha reta e simples. Era um kapha, um espírito das águas comum no local. Tinha a forma de um garoto verde com cabelos roxos em desalinho, com mãos e pés como os dos sapos que viviam ali, e andavam armados com uma vara de pesca simples. A vara de pesca era usava como um tipo de chicote ou lança, de acordo com a vontade da criatura.

Kaphas não são criaturas más, apenas brincalhonas. Mas, como muitos espíritos brincalhões, não entendem que os vivos nem sempre compreendem estas brincadeiras. E, para o azar deste kapha em particular, ele havia escolhido a Sábia errada para se divertir. Dark Alice nem mesmo pegou suas adagas presas à cintura. Simplesmente abriu a palma de sua mão na direção da criatura e invocou a magia que era sua marca registrada.

“Espíritos anciões.” invocou com a voz tranquila.

Uma esfera branca de energia surgiu à frente de sua mão, e dela partiram cinco esferas consecutivas, que avançaram ferozmente contra o kapha. As cinco esferas bateram como cinco martelos no peito da criatura, que foi jogada ao chão com força. Sendo um espírito, não sangrou, mas sua essência havia sido danificada, ficando com partes do corpo transparentes, e sua expressão mudou.

O kapha levantou suas mãos para o alto e, do chão onde estavam, três esferas d’água surgiram e avançaram com a mesma ferocidade para cima da Sábia. Esta apenas abriu os braços e recebeu os ataques com um sorriso no rosto. As esferas nunca atingiram a garota, mas se transformaram em uma matriz de energia azulada à sua frente. E, sem perder tempo, se transformaram em uma esfera elétrica, de onde partiu um relâmpago em direção à criatura, que gritou de agonia e desapareceu.

“Ataques mágicos contra uma Sábia, kapha?” falou para o espírito que desaparecia. “Realmente? Mas obrigada pela mana. Usarei com parcimônia.”

Absorvendo o restante da matriz arcana que criara a partir do ataque mágico do kahpa, Dark Alice seguiu direção norte, para o templo de Amatsu. Contrariando suas expectativas, não apareceu nenhum outro kapha no caminho. Não sabia exatamente porque, mas não interessava tanto. Se ela fosse a causa do sumisso deles, tanto melhor. Se não, estaria preparada para o que fosse, como sempre. Mas ainda não era a hora de pensar nisso, pois havia outro perigo antes de chegar ao templo, pelo que lera mais cedo: uma parede de hidras.

E era justamente onde chegava. A área alagada do pântano, ainda que não fosse profunda, era perfeita para as criaturas. Seus tentáculos, fora da água, eram curtos, ainda que fortes, mas podiam viajar rapidamente alguns metros para atacar suas presas quando havia água no ambiente. E não faltava água ali. Foi justamente quando um tentáculo surgiu ao lado da garota, agarrando sua perna esquerda.

Dark era uma garota bastante ágil, que garantia a ela a alcunha de Sábia de Batalha, mas a água no local e sua perna presa a tornariam um alvo fácil para aquelas criaturas. Sacou suas adagas damascus da cintura e atacou o tentáculo que a prendia, o cortando com alguma facilidade. Logo outros começaram a surgir ao seu entorno, tentando agarrar suas pernas e braços.

Atacando os tentáculos que estavam à sua frente e à esquerda, Dark alice fez surgir uma parede de fogo sobre a água, queimando os que a atacavam pela direita. O fogo não era muito eficaz contra aquelas criaturas, mas era o que tinha para fazer para se garantir. Enquanto atacava com suas adagas alguns tentáculos, concentrava-se para atingir outros ao seu redor com ataques elétricos e ganhar alguma distância. Mas a quantidade de hidras a atacando era maior do que podia dar conta naquele momento. Resolveu que precisava arriscar uma manobra.

Segurando a adaga esquerda entre os dentes, pegou uma gema de aspecto amarelado de sua bolsa de combate e jogou para cima, pouco antes de um tentáculo pegar a mão esquerda. Soltou a adaga dos dentes no chão e invocou sua magia.

“Furacão!!” bradou a garota.

A gema amarela desfez em pó e este pó desceu para a água onde estava como um redemoinho, e espalhou a água para os lados, como uma ventania que vinha de cima para baixo. Com os cabelos curtos voando violentamente na área de vento que criara, conjurou diversos relâmpagos para atacar os muitos tentáculos, que já estavam enfraquecidos pela ausência de água que ela criara. Enquanto atacava com raios, pegou a adaga que soltara e apontou para a parede de hidras que havia à sua frente.

“Fúria da terra!!” gritou a Sábia, olhando fixamente para as hidras.

O chão abaixo delas tremeu rapidamente e, de repente, várias colunas de terra surgiram abaixo das criaturas, ora as arrancando do solo e partindo-nas em pedaços, ora as soterrando. Por cerca de dez segundos, tudo o que era possível ouvir era o vento criado com a gema amarela, e o chão abaixo das hidras se retorcendo e dobrando, atacando as adversárias da sábia. Debandada a muralha viva, a Sábia correu para dentro do templo.

O templo era simples, para os padrões de Rune-Midgard, mas rico em sua própria forma. Colunas cilíndricas de madeira, pintadas de vermelho, sustentavam um teclado de bambu muito bem construído. As paredes brancas ostentavam desenhos intrincados em cores pastéis, com detalhes em preto e dourado. Um balcão branco com tampo vermelho era o único móvel do local, e algumas pilhas de futons pretos e brancos estavam nos cantos do lugar. E um monge, vestido em um kimono azul simples, regava os bambuzais que haviam em uma das paredes. Era careca, e possuía grossas e pesadas sobrancelhas cinzas, e ostentava um bigode comprido e fino, também grisalho, que combinava com as marcas da idade avançada que tinha.

Dark Alice guardou suas adagas, ajeitou seu cabelo em desalinho e esperou no pórtico de entrada do templo, aguardando o monge terminar suas tarefas. O monge não parecia ter notado a presença da garota, mas ela sabia que ele não demonstraria, nem pararia sua função para falar com um visitante. Aguardaria quieta, recuperando o fôlego da luta que acabara de acontecer.

“Vem de longe, jovem.” falou o monge, após deixar o regador ao lado dos bambuzais. “E traz contraste para este local ermo.”

“Sim, realmente, velho monge.” respondeu a Sábia, em tom tranquilo. “A vida é toda feita de contrastes. Sem o vermelho, o branco jamais seria apreciado.”

O monge levantou a cabeça e olhou diretamente a garota. A Sábia sabia que tinha impressionado o velho monge. Sua voz sempre fora confundida com alguém mais nova, e mesmo sua aparência. Era algo normal. O que ela não esperava era que o monge se impressionasse, já que geralmente eram pessoas sábias.

“Bem, se chegou até aqui, jovem, certamente é alguém apta a combates.” falou o monge, olhando para os olhos de Dark Alice. “Fala bem, mas como saber se não são apenas provérbios desprovidos de conteúdo?”

“Minhas palavras demonstram o que há em minha mente, da mesma forma que minhas mãos em meu espírito, monge.” respondeu a garota. “Se desejar que demonstre qualquer uma das faculdades, faça seu desafio.”

O monge virou-se, após fazer um sinal para que a garota o acompanhasse. Com a Sábia o seguindo, o monge pegou dois futons, colocou um à frente do outro e, entre eles, colocou uma caixa de madeira, que não parecia muito pesada. Ao abrir a caixa, um mecanismo simples de alavancas fez com que ela se desdobrasse como uma mesa com tambo quadriculado. No centro, uma caixa menor, que ele abriu com cuidado e retirou 32 peças esculpidas em bambu. As peças eram divididas em duas cores – dezesseis brancas e dezesseis vermelhas – e cada conjunto possuía oito peças idênticas, três pares e duas peças diferentes.

“Acredito que esteja familiarizada com este passatempo, jovem.” perguntou o monge, ao mostrar as peças finamente detalhadas para a Sábia.

“Xadrez, monge?” Indagou levemente incrédula a garota. “Sim, conheço o jogo, embora não seja uma exímia jogadora. Mas deseja me desafiar em uma partida de xadrez?”

“Não, jovem.” Respondeu o monge, começando a montar os dois exércitos de bambu. “Desejo testá-la com uma partida de xadrez.”

Dark Alice sentou-se de pernas cruzadas em frente ao tabuleiro, do lado das peças brancas, por indicação do monge. Este sentou-se em seu lugar, e fez menção para a garota começar a jogar. Não acostumada a aceitar lisonjas, a garota respirou fundo, lembrando-se que não era apenas uma lisonja, mas um teste, e começou a jogar.

Por cerca de uma hora e meia, apenas o som suave das peças de bambu sendo movidas pelo tabuleiro se fazia presente. Os dois embatiam-se no tabuleiro agilmente, mostrando a ambos que estavam lidando com alguém capaz não apenas de manter um nível alto de raciocínio, como também manter este nível com agilidade. A partida terminou quando o rei branco deitou ante um bispo vermelho. Enquanto Dark tirava sua mão do tabuleiro, após deitar o representante maior de suas tropas, o monge olhava para o tabuleiro.

“Há anos não tinha um desafio desta magnitude, jovem.” falou o monge, com uma leve entonação divertida.

“Mas perdi, de qualquer forma, monge.” respondeu a garota, analisando o tabuleiro. “Não creio que tenha passado em seu teste.”

“Em momento algum disse que a vitória no jogo seria o final do teste, minha jovem.” respondeu o monge, agora olhando para Dark Alice. “O teste era saber o que havia por trás destes olhos. Não esperava que realmente pudesse me vencer.”

“Entendo.” respondeu a garota. “Bem, poderia me dizer qual a razão disto, então, monge?”

“Era apenas um teste, jovem.” respondeu o monge, levantando-se com alguma dificuldade. “Preciso me retirar, mas poderia guardar o tabuleiro, por favor?”

“Está bem.” respondeu Dark Alice. “Obrigada pelo desafio, de qualquer forma.”

Com um simples sorriso, o monge virou-se e seguiu para trás de um biombo que estava mais ao fundo do templo, discretamente colocado. A Sábia teve a impressão de ter visto um leve brilho avermelhado nos olhos do monge quando este sorriu, mas não podia mais ver o rosto dele, então colocou-se na tarefa de juntar as peças do xadrez, enquanto pensava o que faria a seguir para encontrar o que precisava. Acreditava que o monge teria uma resposta; teria que investigar o templo, provavelmente, quando terminasse de fechar a caixa de jogos.

Quando terminou de juntar as peças dentro da pequena caixa, colocou-a no centro do tabuleiro como o monge havia feito anteriormente para montar, e fez o movimento contrário ao de fechar que ele havia feito. Mas, ao invés do tabuleiro apenas fechar em si mesmo e voltar a ser uma caixa, o sistema de alavancas fez com que a tampa-tabuleiro afundasse para o interior da caixa, como se a virasse do avesso. Dentro dela, uma urna de metal polido, com desenhos intrincados com motivos semelhantes a diversas aves em seu entorno. Dentro da estranha e inconspícua caixa estava o objeto que precisava.

Olhou uma vez mais para dentro do templo, na direção que o monge havia ido, mas não havia nem mesmo o biombo ali. Estranho, mas sua missão estava completa. Estava com a urna contendo a Saliva de Pássaro em mãos, e era hora de voltar para Prontera, encontrar os demais para completar sua missão. Assumindo, é claro, que todos tivessem conseguido cumprir sua parte.

Pegou de dentro de sua bolsa de combate uma asa de borboleta, enfeitada e esfarelou-a em sua mão livre, desaparecendo do templo.

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Mar 262013
 

Hora de falar um pouco sobre biologia. E tecnologia. E a melhor parte: ambos ao mesmo tempo!

Creio que muitos já ouviram falar da poluição das águas com plásticos, certo? Quem vai à praia certamente já viu os belos cardumes de Garrafas Plásticas Pintadas ou as majestosas Sacolas Plásticas dos Galápagos nadando livremente por aí, certo? Pois é. Essa bela fauna existe por conta dos plásticos que utilizamos e que são jogados fora de qualquer jeito.

Não vou ficar falando aqui sobre a importância de reciclar plásticos, porque isso certamente todo mundo já ouviu falar. E nem vou tentar discutir sobre o porquê fazer isso, pela mesma razão. Hoje vou falar sobre uma solução que fiquei sabendo hoje mesmo.

Mas antes, uma pergunta: quem já ouviu falar do continente de plástico? Acho que nem foi tanta gente assim, então uma breve explicação.

Clicando neste link do Google Maps vocês verão a região onde encontra-se o tal do “vórtice de lixo do pacífico” (tradução minha de “Pacific Trash Vortex”). No Gmaps, infelizmente, não tem como ver o tal do continente, mas acredite em mim que ele está lá. A Wikipedia tem algumas informações sobre ele. O link está em inglês, porque o link em português está bem fraquinho.

A explicação para tal concentração de lixo neste local é que o lixo coletado nos corpos d’água dos continentes (rios e mares, por exemplo) é levado ao oceano, como quem prestou nas aulas de ciências da escola deve lembrar. Sabe, aquele tal de “Ciclo da Água” que a professora falava enquanto você respondia o caderno de perguntas, alimentava seu Tamagoshi ou olhava o Facebook/Orkut no celular (dependendo de sua idade).

Uma vez que este lixo alcança os oceanos, as Correntes Maritmas levam elas para um passeio. Mais ou menos como Marlin, o pai do Nemo, pegando uma carona com as tartarugas surfistas na animação da Pixar. Mas, diferente o peixe-palhaço da animação, o lixo não está em uma missão pessoal, ele está só lá, sendo isso mesmo: lixo. Esse lixo fica lá, passeando nas correntes e começa a se concentrar em algumas áreas, como a do link que mandei, no Oceano Pacífico, e em outros locais, como no Oceano Atlântico. Se não me engano existem cinco destes “continentes” boiando pelo planeta.

Por que eu chamo isso de continente? Bem, tente lembrar de quanto lixo você vê naquele pequeno pedaço de praia que você visita no feriado. Multiplique aquilo pelo número de praias no planeta. Viu quanto lixo? É… Mas isso é só uma parte, só a parte que vemos. Pense nisso se acumulando durante algumas décadas, e talvez você tenha uma noção da quantidade de lixo que está lá, navegando feliz da vida nos oceanos.

Sem querer me esticar mais nisso, agora pense no quanto tudo isso de lixo influencia na vida maritma. Yep, isso tudo mesmo. Na verdade, bem mais do que isso, porque o oceano não tem só golfinhos, tartarugas e baleias azuis. Tem uma quantidade considerável de vida nos oceanos, e toda essa vida desenvolveu-se SEM a presença de plásticos. A vida se adapta? Certamente. Mas ela se adapta a uma situação nova, mas não é fácil se adaptar a uma situação nova que só aumenta de tamanho.

Eis que um garoto de 14 anos, lá dos Países Baixos (Holanda), teve uma ideia interessante para limpar os oceanos do plástico que jogamos por aí. Ou, pelo menos, diminuir o impacto já causado. Boyan Slat pensou em um sistema que captura o plástico que está boiando por aí e o armazena fora da água.

O sistema que ele projetou (e agora, com 19 anos, tenta tocar convidando quem se importa) baseia-se no conceito que o equipamento produziria sua própria energia (solar ou a partir das correntes e ondas), o que não poluiria como utilizar embarcações para recolher o lixo, e usaria bóias no lugar de redes, de forma que não haveria captura acidental de fauna oceânica, entre outras vantagens.

Quer conhecer o sistema que ele desenvolveu? Basta clicar no link boyanslat.com e dar uma olhada. Está tudo em inglês, mas não é exatamente difícil de compreender para quem tiver o mínimo de conhecimento.

A filosofia dele, que eu achei bem interessante, e que o levou a fazer este projeto é esta: “It will be very hard to convince everyone in the world to handle their plastics responsibly, but what we humans are very good in, is inventing technical solutions to our problems. And that’s what we’re doing.” (minha tradução: “Será bem difícil convencer todas as pessoas do mundo a cuidar de seu plástico com responsabilidade, mas se há algo que os humanos são bons, é em criar soluções tecnológicas para nossos problemas. E é isso que estamos fazendo.”)

A primeira coisa que eu consegui fazer para ajudar é espalhar a ideia. Se você leu até aqui, consegui espalhar para ao menos uma pessoa. Se você que está lendo quiser ajudar a espalhar, nem precisa “perder tempo” escrevendo, pode só mandar o link deste texto (ou diretamente do projeto) pra frente. Simples assim.

 Posted by at 11:17