Mesmo que acostumado com andar em meio a florestas e outros ambientes hostis, Tariel não se sentia à vontade no meio do mato. O mesmo poderia ser dito do justiceiro Agent Error, que o acompanhava, mas este, pelo menos, não parecia se incomodar tanto. Afinal, a roupa de couro do especialista em armas de fogo não sofria tanto desgaste quanto as roupas finas do arquimago. E todo arcanista tinha, no seu âmago, algum nível de orgulho a manter.
Mas os problemas envolvendo galhos ou pequenos insetos em suas roupas deixaram de ser importantes no momento que ambos ouviram um estalar de galho próximo a eles, mas não feito por eles. Em um movimento rápido e sutil, as mãos antes vazias do justiceiro agora engatilhavam duas pistolas de seis tiros, apontando para a direção de onde vinha o som. Aparentemente, os óculos escuros do rapaz não eram um empecilho para que ele enxergasse bem, mesmo em lugares com mais sombras.
Aproximando-se devagar da origem do som, o justiceiro fez sinal para o arquimago esperar onde estava, e abaixou-se perto de uma moita. Afastou alguns galhos com uma das pistolas, enquanto puxava o cão da outra, deixando-na pronta para atirar, se necessário fosse. Dentro do mato, encontrou um Petite caído, com uma das asas queimadas de forma estranha.
O pequeno lagarto, do tamanho de uma criança, parecia estar sofrendo com a queimadura da asa. Normalmente estes lagartos atacavam aventureiros desavisados, mas estava claro que aquele ali estava à beira da morte. O justiceiro trouxe a arma engatilhada para a cabeça do animal e puxou o gatilho.
“Era um petite, Tariel.” falou o justiceiro, levantando-se e guardando as armas. “Mas olhe o estado da asa dele. Nunca vi um animal queimar assim.”
“Não viu pois não esteve recentemente em Morroc, meu caro.” falou o arquimago, se referindo a cidade destruída do deserto. “Este tipo de queimadura não é feita por fogo, mas por energia sombria. Me parece que há mais criaturas aqui do que as que aqui vivem.”
Ao ouvir a palavra “sombria”, o justiceiro pegou outras duas pistolas, desta vez de coldres que ficavam na parte de trás da cintura. as pistolas eram também de seis tiros como as outras, mas estas eram adornadas com filigranas delicadas e eram muito mais bem cuidadas, aparentemente. Agent Error abriu os tambores e verificou as munições, e tornou a fechá-las. Ao ver a cara do arquimago tentando entender o que estava fazendo apenas disse uma palavra: “prata”.
O arquimago deu um sorriso para o justiceiro, ficando finalmente mais à vontade com aquele guerreiro: afinal, ele estava preparado para lidar com criaturas sombrias, já que estava com munição de prata, que invariavelmente era letal para criaturas sombrias. Olhou com curiosidade novamente ao ver que o justiceiro abaixava e passava a mão no chão e nas folhagens, aparentemente analisando a região. Ele manteve uma das armas na mão, e aparentemente procurava pistas como se fosse um caçador.
“Houve uma briga aqui, Tariel.” falou o justiceiro, ainda olhando para o chão. “Uma criança gorda, aparentemente, lutou contra um adulto, aparentemente. Eles foram naquela direção.”
“Pode não ser uma criança gorda, mas um adulto pequeno e pesado?” perguntou Tariel, com uma ideia formada na mente.
O justiceiro levantou-se, após a pergunta, e concordou com a cabeça, entendendo o que o arquimago queria dizer. Fez sinal para que o arcanista o seguisse, enquanto seguia para oeste, aparentemente seguindo as marcas no chão e nos arredores. Ele ia narrando o que estava interpretando dos sinais que seguia. Disse que a luta seguira naquela direção, que talvez a vítima fosse a criança, ou o anão que Tariel achava ser. Ele havia sido seguido por criaturas que não conviviam bem com a vida de uma floresta, já que a melhor indicação que tinha para seguir o caminho que faziam era a grama e os galhos marginais, que estavam queimados como as asas do petite.
Seguindo por algumas horas as pistas, pararam em frente a entrada de uma caverna. Na verdade, não era uma caverna, mas uma antiga mina abandonada que havia na região. Muitas caixas atrapalhavam a entrada da mina, mas com um pouco de esforço ambos conseguiram entrar. Agent Error tirou os óculos e guardou no longo casaco que usava, e olhou para os lados, procurando uma tocha. Desistiu, ao ver que o arquimago havia conjurado uma esfera de fogo que o rodeava, iluminando o local. Assim, pegou sua segunda pistola, e ambos começaram a andar pela mina.
A mina estava abandonada há anos. Era uma mina de carvão, se a memória do arquimago não falhava, mas que fora abandonada por conta de uma infestação estranha que havia transformado os antigos mineiros dali em mortos-vivos. No meio dos carrinhos tombados, trilhos quebrados e uma bomba de água quebrada, ratos e morcegos fugiam da luz que era projetada pelo conjurador. Ainda que alguns morcegos atacassem a dupla, eles não ofereciam perigo para os dois.
Seguindo o caminho dos trilhos, que certamente levaria até o fundo da mina, a dupla confirmou que a luta que viram do lado de fora havia seguido ali para dentro. A poeira que acumulava naturalmente neste locais estava agitada na direção que seguia, confirmando que estavam no caminho certo.
Após descerem por algum tempo, a dupla encontrou um indício que estavam lidando com um anão ferreiro, e não uma criança: haviam encontrado um martelo caído no chão, muito parecido com o que Tariel havia visto Toki usar. Era, sem dúvida, um martelo de ferreiro. Tariel pegou o utensílio e prendeu em seu cinto, para entregar ao seu dono, ou ao ferreiro, se não encontrasse o primeiro.
Mas, assim que pegou o martelo, luzes começaram a aparecer mais à frente, na área não plenamente iluminada pela esfera de fogo que Tariel mantinha acesa. Algumas dezenas de pontos de luz começaram a se aproximar, fazendo som de metal raspando em metal.
O arquimago reconjurou a chama, para aumentar sua eficácia, e a dupla pode ver com precisão que eram pessoas. Mais precisamente, ex-mineradores, carregando lampiões acesos em uma mão, e picaretas enferrujadas na outra. Antes que Tariel pudesse invocar qualquer magia, os altos estampidos das pistolas de Agent Error fizeram alguns deles caírem.
“Estamos cercados, Tariel.” falou o Justiceiro. “Algum truque na manga?”
No mesmo instante, a esfera que rodeava o arquimago ampliou em tamanho e explodiu em uma onda de fogo ao redor dos dois, queimando os mortos-vivos instantaneamente, sobrando apenas montinhos de cinza onde antes eles estavam.
“Muitos.” respondeu o arquimago, conjurando uma nova chama para iluminar o caminho. “Todos letais.”
“Ótimo, pois vamos precisar, pelo visto.” respondeu o justiceiro, já recarregando as pistolas com munição revestida por prata novamente. “Que tal uma corrida para dentro da mina?”
Sem responder, o arquimago começou a correr no sentido que já estavam indo, seguido de perto pelo justiceiro. Seguiam a pista marcada na poeira, que seguia o caminho que os trilhos dos vagões de carvão delimitavam, e que se tornara um corredor sinuoso. De tempos em tempos, o justiceiro olhava para trás e dava um tiro certeiro em algum morto-vivo que aparecesse, recarregando a munição gasta em seguida.
Chegaram em uma espécie de abismo dentro da caverna, onde três trilhos suspensos pareciam levar para o outro lado. Um deles estava quebrado, enquanto que os outros dois iam paralelos, aparentemente suspensos apenas pelas extremidades.
“Bem, me parece que temos que ir para o outro lado, não? No mínimo porque acho que não vai adiantar voltar agora que já chegamos aqui.” falou o justiceiro, mais de olho para o local de onde vieram, de onde poderia vir outros mortos-vivos, do que no local que teriam que ir.
“É o que parece. Vamos, então.” respondeu o arquimago. “Vamos pelo mesmo trilho. Vá na frente, que eu vou garantir que não seremos seguidos.”
O justiceiro, então, começou a andar nos trilhos suspensos, enquanto que o arquimado conjurava uma grande barreira de gelo impedindo qualquer um de chegar nos trilhos que estavam. Falou para o Agent Error que teriam que se apressar, pois a barreira não ficaria ali indefinidamente.
Após uma travessia tensa, devido ao ranger constante das madeiras dos trilhos, chegaram ao outro lado. Lá, mais vagões de carvão caídos pareciam impedir o uso dos trilhos, mas também pareciam ajudar a manter os trilhos no lugar, o que era bom para ambos. Andaram mais para dentro da mina, procurando novos sinais do que estavam caçando, mas não encontraram nada.
“A trilha sumiu. Será que quem estamos seguindo não conseguiu atravessar os trilhos?” indagou o justiceiro. “Não havia sinal de luta do outro lado, então não acho que o anão tenha caído.”
Antes que o arquimago respondesse, ambos sentiram um calafrio subindo suas costas. Um som de vento se fez ouvir, o que era estranho, considerando que estavam em uma mina. Tariel olhou para o chão, e viu uma fina névoa azulada se formar no chão.
“Cuidado!!” alertou seu companheiro quando reconheceu a névoa. “É uma Névoa!!”
Quando o arcanista disse o nome da criatura, a fina névoa azulada se encolheu e se concentrou, assumindo uma coloração roxa, trazendo partes de telas de metal e peças dos vagões para dentro de si, e elevando-se como se fosse uma criatura de pesadelo. Seu corpo parecia formado de vento e detritos espiralando, e a todo momento parecia se reformar e deformar. O estranho corpo moveu-se na direção da dupla.
O justiceiro rapidamente prendeu os revólveres nos coldres de trás e pegou os da frente, com munição normal, e começou a disparar na direção da criatura. Cara tiro certeiro parecia ferir a criatura, pois ela diminuia o avanço e emitia um som como de um uivo no vento que ela gerava. Ao mesmo tempo, Tariel invocava lanças de fogo na direção da criatura, tentando diminuir a quantidade de material que formava seu corpo.
Tariel pegou em sua pequena bolsa uma gema azul, como as que sacerdotes usavam para invocar portais. Fazendo sinal para o justiceiro cobrir os olhos, jogou a gema para a criatura que, com uma espécie de tentáculo de vendo, capturou a gema e a levou para dentro do seu corpo. No momento que a gema sumiu nos detritos, o arquimago levantou os braços para o alto e a criatura explodiu em uma enorme coluna de fogo, que ia do chão onde estava até o teto da mina.
“Isso deve resolver este problema.” falou o arquimago. “Vamos, agora, pois acho que essa pirotecnia vai atrair mais problemas, se não formos rápidos.”
Ambos correram mais para dentro da mina, deixando a coluna de fogo para trás, que certamente iria atrair para lá mortos-vivos. Com sorte, as criaturas pouco inteligentes seriam atraídas pelo fogo e acabariam se queimando também, enquanto a coluna de fogo durasse.
Adentrando um pouco mais, a dupla encontrou o que estava procurando, embora não da forma que esperavam. Havia um anão no fundo da mina, mas ele estava acorrentado à parede pelos braços e pernas. Suas roupas estavam bem rasgadas e cortadas, e era possível ver vários cortes em seu largo tórax. Alguns cortes eram recentes, com sangue ressecado, outros eram mais antigos, mas aparentemente todos feitos por um chicote ou algo semelhante. Dava para ver que o anão respirava, mas sua respiração era lenta e profunda, como se dormisse.
Quando o justiceiro se aproximou do anão, sentiu um estalar às suas costas, vindo de uma área mais escura da câmara que estavam. O arquimago ampliou a chama e colocou-se de frente ao local de onde partira o ataque, enquanto Agent Error mirava suas pistolas na mesma direção.
“Eu sabia que, cedo ou tarde, alguém procuraria por ele.”
Com o som típico de metal tocando metal, a pessoa que estava coberta pelas sombras deu dois passos a frente, se revelando na luz da chama de Tariel. Era um homem alto, usando uma armadura de metal cinza-azulada, com uma capa vermelha jogada para trás, um tanto rasgada. Uma espécie de elmo cobria a parte da frente de sua cabeça, mas seu rosto estava todo à mostra. Seus olhos eram completamente brancos, sem pupila, e marcas como quem chora sangue desciam de suas órbitas. Sua mão esquerda estava vazia, mas a mão direita segurava o chicote que gerara o som e que, certamente, havia marcado o corpo do anão.
“O que é você, criatura?” perguntou o justiceiro, engatilhando suas armas, apontadas para o cavaleiro à sua frente. “O que está fazendo com o anão?”
“Ora, estou apenas me… divertindo, um pouco.” respondeu o cavaleiro, com um tom lascivo na voz. “E eu sou apenas um mensageiro.”
O chicote que estava na mão do cavaleiro encolheu e ficou rígido, se transformando em uma espada longa, com uma aura negra ao seu redor. Debaixo da capa, asas escuras, como que feitas de sombra, surgiram e começaram a bater, fazendo a criatura flutuar no ar.
“E o recado que trago é: abandonem suas ideias. Desistam de seus planos e não sofrerão.” falou o cavaleiro alado. “Bom, o recado era, na verdade, para o anão. O recado pra vocês é mais simples.”
Voando na direção do arquimago, que estava apenas olhando enquanto concentrava energia arcana em sua mão, o cavaleiro investiu em uma estocada contra o arcanista. Com um movimento rápido com a mão esquerda, Tariel colocou uma barreira de fogo entre ele e seu oponente, e com a esquerda fez explodir uma supernova de sua chama, impedindo completamente o ataque que vinha contra si e jogando o anjo negro para trás. Ao mesmo tempo, Agent Error descarregou suas duas armas na criatura, que chiou a cada tiro e ainda mais com a chama que atacou seu corpo.
Quando a criatura recuperou-se dos ataques, Tariel estava novamente com a chama rodeando seu corpo e o justiceiro já havia soltado suas armas e pego as armas que carregava atrás, carregadas com munição prateada. Desta vez, o anjo investiu contra o justiceiro, tentando cortá-lo com sua espada, mas este desviou rapidamente para o lado, disparando alguns tiros contra seu corpo, que desta vez pareceu sentir mais, pois os buracos dos tiros agora soltavam fumaça negra, muito semelhante ao efeito de tinta negra em água cristalina. Tariel aproveitou a situação de combate para preparar uma magia maior.
“Vou mantê-lo ocupado! Tente soltar o anão!” gritou o arquimago para seu companheiro.
Da mão esquerda do arcanista partiu uma esfera de gelo que criou um rastro de ar congelado até atingir o anjo negro, que ficou preso em um cristal azulado. Assim que seu oponente congelou, Tariel disparou de sua mão esquerda uma esfera elétrica que envolveu o anjo congelado e o jogou contra a parede da gruta, eletrocutando-no com mais violência pelo estado congelado que se encontrava.
Enquanto o justiceiro voltava para ajudar o anão, Tariel começou a invocar mais e mais esferas elétricas, disparando contra o cavaleiro, que estava visivelmente sentindo o ataque incessante do arquimago. Cada uma das esferas elétricas parecia, além de eletrocutar o corpo todo do oponente, esmagá-lo contra a parede. Agent Error quebrou as correntes que prendiam o anão com o cabo de suas armas e o ajudou a ficar de pé, dentro do que suas forças permitiam.
O anjo negro, ainda sendo açoitado pelo ataque incessante de Tariel, conseguiu aproveitar uma brecha curta no ataque para teleportar-se para o outro lado da gruta, numa tentativa de pegar o perigoso arquimago em um ataque por trás, mas não contou com a agilidade do justiceiro. Assim que ele apareceu do outro lado de Tariel, a única coisa que viu foram os dois canos das armas gêmeas do justiceiro. Este simplesmente pulara para trás do companheiro, como se adivinhasse qual seria o movimento do anjo. E puxara os gatilhos.
O que era antes a cabeça do anjo, agora era apenas um monte de fumaça negra se espalhando pelo local, seguido do restante de seu corpo, que se desfazia em uma espiral de fumaça. A fumaça começava a tomar uma forma vagamente humanoide, mas muito maior do que o anjo, e ela parecia que iria engolfar todo o local e os três que ali estavam, se não fosse uma nova explosão de chamas do arquimago, que pareceu dissolver a fumaça negra de uma vez.
Assim que Tariel invocou uma nova chama, para repor a que explodira na supernova, foi possível ver o quanto ele estava cansado. Escorria suor de sua testa e ele ofegava. Visivalmente a prisão elétrica havia exigido demais do arquimago, mas tinha cumprido seu papel.
“Precisamos voltar para a superfíce agora, Tariel.” falou o justiceiro, guardando suas armas nos coldres e pegando as armas que soltara no chão. “Você não parece em condições de lutar por muito mais tempo, e o anão não parece estar muito melhor.”
“Irei melhorar, obrigado.” respondeu o ofegante arquimago. “Apenas gastei muita energia. Mas temos que levá-lo. Uma pena que Elenna não veio conosco, ela poderia nos transportar para o lado de fora em segurança.”
“…telo…” murmurou o anão, aparentemente voltando a si. “Mar… tel…”
Tariel olhou para o anão, e pegou o martelo de ferreiro que encontrara no monte Mjolnir mais cedo. Entregou para o anão, que esticava sua mão direita com algum esforço, mesmo achando que ele não teria força para segurá-lo. Assim que o anão pegou a ferramenta, começou a respirar mais normalmente e levantou-se.
“Estou em dívida com vocês, guerreiros.” falou o anão, visivelmente recuperado. “Voltarei para junto dos meus.”
Falando isto, o anão bateu de leve o martelo na parede da mina, e uma lasca em formato de diamente perfeito caiu em sua mão. Ele entregou para o arquimago, falando que quando fosse a hora, ele poderia usar aquela rocha para invocá-lo e cobrar sua dívida. Tariel agradeceu e guardou a pedra, que começava a transformar-se em um cristal.
Em seguida, o anão ajoelhou-se e bateu com força o martelo no chão, e os três foram tragados pela terra, como água sendo sugada por um ralo. No instante seguinte, estavam ambos os aventureiros do lado de fora da mina, perto da entrada, enquanto que o anão havia desaparecido.
“Bom, parece que nossa missão foi um sucesso, não?” falou o justiceiro, guardando as armas no coldre normal. “Hora de voltarmos para Prontera e esperar os demais. Acho que você merece um descanso.”
“Tem razão.” respondeu o arquimago, retirando de seu bolso, onde guardara a pedra, um par de asas de borboleta, e entregou para o justiceiro uma delas.